NOVEMBRO 2025
Ele diz. Ela diz. E o leitor, por sua vez, não os ouve.
Há não muito tempo, meus personagens costumavam conversar bastante entre si. « Palavras são vida », eu pensava. Um diálogo, ou até mesmo um monólogo (eu sou de falar comigo mesmo de vez em quando), certamente daria vida à cena.
— Eu te amo — disse ele.
— Eu também — disse ela.
Duas linhas e pronto, o trabalho está feito. Daí, vendo que a coisa estava um pouco « seca », eu disse a mim mesmo que adicionar algumas marcações de diálogo mais elaboradas não seria nada mal.
— Eu te amo — disse ele.
— Eu também — respondeu ela.
Eu tinha a impressão de que tinha escrito um belo melodrama, transbordando sentimento. Na realidade, eu tinha apenas esboçado as minutas de uma cena apresentada para uma plateia de uma única pessoa, e deixado toda a emoção de fora. Mas claro, não sendo de todo idiota, mesmo como um escritor iniciante, eu sentia que algo não estava certo.
Sentia. Do verbo sentir. Sentimento.
Nesse momento, eu troquei de marcha. Na minha cabeça, pelo menos. Eu disse a mim mesmo que, já que estava faltando emoção, eu simplesmente a adicionaria. Um advérbio bem colocado onde fosse necessário e pronto, o problema estaria resolvido.
— Eu te amo — disse ele tristemente.
— Eu também — respondeu ela emocionada.
Tá aí. Agora dava pra ouvir a emoção, não dava? Graças aos dois advérbios ali? Sim, claro. Mas, não importava quantas vezes eu lesse, eu não me sentia « nas nuvens ». Para linhas de diálogo cujo único propósito era mover a história, « disse » servia bem. Mas havia momentos em que o leitor precisava ser levado pelo que o personagem estava quase confessando. Eles precisavam estar lado a lado, de mãos dadas.
Ele precisava sentir. Olha aí essa palavra de novo: sentir.
Como ir além? Como fazer isso chegar ao leitor? Aqui chegamos a uma linha que precisa ser cruzada. Pra exprimir emoção, no meu ponto de vista, você precisa permitir se comover como autor. Se você encara a página diante de você de maneira impassível, as chances de ela tocar o leitor são praticamente zero, não importa quantas cebolas peçamos para que o leitor descasque de antemão.
E o que vem depois? O que comoveria o leitor mais do que as palavras « eu te amo »? « Eu te amo » não é algo que você diz pra qualquer pessoa que aparece pelo seu caminho, é algo que tem bastante peso por si só. Bom… Tá bem, então. Certo. Vou tirar a rede de segurança e me jogar.
Ele desviou o rosto por um segundo e então passou a devorá-la abertamente com os olhos. Ela o encarou com um sorriso quase imperceptível desenhado em seus lábios. A respiração dele ficou mais pesada, já a dela, presa.
Não sei de cabeça se esse verbo existe, mas vamos ser ousados, eu assumo a sua autoria: eu « sensorizei » o momento. Tenho certeza de que agora entenderão. O corpo fala, os olhos falam... não há uma palavra sequer, e ainda assim dá pra ouvir tudo. Só faltam o piano romântico e a harpa. Na verdade, não faltam não. Escute com atenção... dá quase para ouvi-los.