MARÇO 2025
"Começar uma história gótica no cemitério de uma igreja... não dava pra ser mais clichê?" já me perguntaram isso várias vezes. Acho que é um passo quase que inevitável do gênero.
Mas, como um iniciante, nada disso era óbvio para mim. Apenas me parecia lógico, praticamente acadêmico. Como professor da ciência da computação, eu sempre tive o hábito de mostrar o resultado final antes de explicar o processo para chegar nele. Quando se ensina alunos impacientes, você começa mostrando como o programa funciona e, só depois, detalha e demonstra o passo a passo de como ele foi criado.
Castle Hill nasceu assim. Pelo fim. Pelo lugar onde tudo se encerra. Mas não era só isso. Algumas igrejas possuem cemitérios cujas belezas artísticas me fascinam. Uma solenidade clássica, austera... alguns lembram verdadeiras obras de arte a céu aberto. O cemitério de Père-Lachaise tem um certo ar teatral. O Cimetière de la Madeleine, local de descanso de Jules Verne, é luminoso. Já Highgate, em Londres, parece um cenário de um filme do Tim Burton. Nenhum desses lugares pertence apenas à morte. Eles são cheios de lembranças, silêncio e, às vezes, até humor. Lá nos deparamos com as memórias dos vivos bem mais do que com a ausência dos mortos.
Rapidamente Castle Hill deixou de ser um cenário fúnebre. O cemitério da igreja ganhou vida, e foi aí que, muito provavelmente, a história encontrou de verdade a sua personalidade.
Eu comecei a me divertir com os mitos góticos mais tradicionais. Eu me divertia imaginando um grupo de mortos "bon-vivant": fantasmas fofoqueiros, criaturas melindrosas e resmunguentas, presenças que ora eram ridículas e ora eram comoventes. Eu até escrevi uma música sobre isso! Em vez de um reino fixado no macabro, Castle Hill se tornou uma vizinhança cheia de vida, com seus próprios hábitos, problemas e habitantes excêntricos.
Estranhamente, eu acho que foi nesse momento em que o romance entre Gabriel e Penelope começou a respirar. O dia do enterro da Penelope.
O cemitério representava o melhor ponto de partida, pois ele continha todas as contradições da história: morte e humor, elegância e decrepitude, romance e ação... a lista continua. Ao começar pelo fim, eu me vi criando uma natureza morta cheia de... bem... cheia de vida.